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A Jovem Guarda

(Rujany Martins)

De repente ela estava ali à minha frente. Linda em sua lourice dourada.

Surpreendentemente inteligente e bem falante para mim, que achava, cheio de preconceito, que aquele bando de cabeludos e garotinhas mal arrumadas e de sainhas curtas ou calças jeans, não passava do grupo alienado que o meu amigo e conterrâneo Pinheiro Junior identificara numa histórica série de reportagens na Ultima Hora, como a “Juventude Transviada”.

Estávamos no bar do Madeira, na rádio Guanabara. Madeira era um português bronco, mas simpático e boa praça que chamava o pessoal da rádio e visitantes, indistintamente, da mesma forma rude e amistosa: “Pode entrar Um pilantra a mais ou menos, não vai fazer diferença”. E lá íamos nós, os “pilantras”, ocupar as mesas e cadeiras alinhados na varanda improvisada em bar no 25º andar do Edifício Darke de Matos, na Avenida 13 de Maio.

Ali, o pessoal da Bandeirantes de São Paulo – os mesmos Saad de hoje – investiam na velha PRC-8 que revelara Chico Anísio e Elizete Cardoso e que eles tentavam recuperar em prestígio e audiência. Para tanto investiram na formação de um elenco que, além de uma equipe de esportes apelidada de “escrete do rádio” que reunia o que de melhor existia no setor do Rio de Janeiro, contratou alguns dos mais queridos comunicadores da época: Jorge Curi, Sargentelli, Jair Amorim, Januário Ferrari, Carlos Imperial e José Messias. Messias comandava as manhãs da Rádio Guanabara, disputando, segundo a segundo, com as grandes Nacionais, Globo e Tupi.

E começou a ganhar delas quando com olho clínico, acreditou no que Imperial lhe falava a respeito de um grupo de garotos que à frente um certo Roberto Carlos, ele garantia que teria futuro brilhante.

Por isso, graças à presença de Carlos Imperial e José Messias, a garotada do que viria a ser a “Jovem Guarda”, passou a transitar diuturnamente pelos corredores e estúdios da Rádio Guanabara: Roberto, Erasmo, Renato e seus Blue Caps, Wanderléia, Rosemary, Golden Boys e seus irmãos o Trio Esperança, viviam pelos corredores, participavam dos programas e lanchavam ou almoçavam (quando alguém pagava a conta), no bar do Madeira.

Assim, não era nada demais eu estar ali lanchando, no bar do Madeira, com a Rosemary.

– Diga-me, Rose: o que você, linda e inteligente como é, está fazendo no meio desses cabeludos?

E ela, antecipando pra minha certeza que tinha do sucesso do grupo, explicou:

– É que eu quero ser uma cantora famosa. Quero vencer na carreira. E esse grupo de garotos é muito talentoso e vai fazer sucesso. Todos somos amigos e vamos vencer juntos, com a ajuda de Imperial…

Alguns meses depois, fui escalado para “cobrir” um show que o Messias faria no velho Teatro Recreio, na Rua Pedro I, na Praça Tiradentes e que foi demolido. Era uma festa que o Messias promovia com o elenco do que ele já chamava de “Jovem Guarda” para o lançamento dos primeiros sucessos do Roberto Carlos. Roberto estava começando a carreira e ainda nem tinha gravado “O Calhambeque” seu primeiro grande hit. Mas confesso que me emocionei quando o Messias o chamou ao palco do Recreio.                 Aplausos apoteóticos me arrancaram lágrimas de emoção. Eu estava assistindo ao nascimento de um dos maiores – talvez o maior ídolo da música brasileira, Roberto Carlos- o rei – estava começando ali.

E o grande parceiro dele?

Erasmo era uma espécie de secretário de Carlos Imperial. Que cuidava da agenda e carregava uma pilha de long-plays (os discos da época), que Imperial importava dos Estados Unidos e que faziam o sucesso de seu programa “Os Brotos Comandam”. Todos os dias, às 5 da tarde, na Rádio Guanabara e às noites na Boate Plaza em Copacabana.

Eu era assistente do diretor Dolar Tanus e tinha mesa na sala dele, na ante-sala da direção geral da rádio. Naquele dia, eu que tinha o meu próprio programa “Desafiando Discotecas”, às 6 da tarde e participava do “Gessy pergunta até mil discos”, com Jorge Curi, já tinha substituído Oliveira Filho apresentando o “Qual é a música”, quando Erasmo entrou na sala com sua pilha de discos.

– Rujany – começou – o Imperial acaba de ligar avisando que não pode vir fazer o programa.

Até hoje não sei se ele estava preparado para minha reação ou se “sacou” na hora que era a sua chance. O fato é que diante do meu evidente desagrado ele propôs:

– Olha, se você quiser eu faço o programa. Eu tô acostumado a substituir o Imperial na boate e não vai haver problema não…

Naquele momento eu resolvi arriscar.

Afinal, o garoto estava realmente familiarizado com as coisas e com o estilo do Imperial com quem vivia dia e noite,

Então arrisquei:

– Olha Erasmo. Eu vou assumir esta responsabilidade, mas vou avisando (e apontei para um auto falante atrás da minha mesa, no qual me acompanhava a programação da rádio):

– Vou ficar daqui acompanhado. Se você fizer alguma besteira e vou lá e tiro você do microfone!

– Não tem problema. Deixa comigo que vai dar tudo certo.

E deu.

Erasmo Carlos, naquele momento um garoto desconhecido do público, que era apenas o secretário de Carlos Imperial, fez o programa direitinho e passou a ser o substituto oficial do Imperial. Toda vez que ele faltava (o que passou a ser rotina).

Por curiosidade, lembro também um fato que poucos conhecem: naquele momento, Wilson Simonal, também descoberto do Carlos Imperial revezava entre os palcos do Copacabana e a mesa telefônica da Rádio Guanabara, onde defendia um salário de telefonista.

Não sei se com o passar do tempo e a chegada do retumbante sucesso que os fez ricos e famosos, eles terão voltado ao antigo 25º andar do edifício Darke, onde essas coisas aconteceram. Teria sido muito engraçado, ver e ouvir o Madeira, em pé na porta do seu bar gritar para o Rei “Roberto Carlos”: Venha Roberto! Pode entrar. Um pilantra a mais ou menos não fará diferença.

Um comentário sobre “A Jovem Guarda

  1. Oi, Rujany!

    Gosto muito dessas memórias. Seria interessante você produzir um livro com essas lembraças.
    Abraços
    Tânia Tavares

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